O UMBIGO DO OUTRO.

Animais. É isso que somos. Mamíferos placentários que desde o nascimento são marcados pelo umbigo. O próprio umbigo. O cordão umbilical é cortado e lá teremos aquela cicatriz, que fica pra sempre, pra nos lembrarmos da nossa condição de selvagens.

A vida inteira somos animais procurando o nosso espaço, as nossas vontades, os nossos gostos, as nossas comidas, o nosso amor – querendo encontrar e afirmar as nossas complexas personalidades. Com a diferença de que a nossa espécie – humana e privilegiada – foi presenteada com a capacidade de pensar mais elaboradamente, e de olhar com mais atenção para o umbigo do outro. Nesta ordem. Primeiro um, depois o outro.

Eu sei, isso demora. Pelo menos pra maioria. Me incluo nela. A necessidade desse olhar a gente descobre cedo. Os adultos ensinam aquele animalzinho de menos de 1,20 de altura a não azucrinar o coleguinha de óculos da escola, a não jogar bolinha de papel na professora, a pedir licença, a pedir desculpas. Eu sei, eu sei, regras. Assunto chato. Já tô parando. Já já chego onde quero.

A serenidade é um ideal. Difícil abafar o animal latente que há em nós. Nos emocionamos e concordamos com a sabedoria do provérbio de Salomão, que manda na lata a verdade, nua e crua: “tire um orgulhoso da sala, e não haverá brigas”. Pergunta-se: será que ele não era orgulhoso? Nem um pouquinho? Será que era mesmo tão evoluído? Será que conseguia auto domar-se com perfeição? Controlar seus instintos mais primitivos com constância?

A verdade é que tem gente que consegue se sair bem nessa tarefa. Eu conheço. E quero ser igual quando crescer.

Quando era pequena tinha medo de isso significar fraqueza – culpa da mídia, certeza. Entre a sem-graça, a desgraça e a nem-de-graça, eu só tinha pavor de ser a sem-graça. Acho que minha mãe se arrepende de ter rogado a Deus pra não ter filhas pombocas, pois imagino que não deva ter sido fácil lidar com 3 animaizinhos de sexo feminino – o que pode piorar um pouco as coisas – dentro de casa.

Tô deixando de achar tão-máximo-assim as mocinhas mimadas do cinema hollywoodiano, cheias de caprichos, orgulho e vontades, com suas poses e chiliques de donzela em apuros, pra dar valor às donzelas que se preocupam em se importar com o umbigo do outro. Que transigem. Que cedem para o bem do convívio geral. Que escutam. Que veem com benevolência a cicatriz do umbigo do outro. Gente fácil, sabe? Que tenta descomplicar. É essa gente que é lembrada. Amada. Que ganha poesia linda no epitáfio. É essa gente que tem ganhado a minha admiração e os meus suspiros. De verdade. Gente de verdadeiro brio.

E, o melhor de tudo, vai por mim – tô descobrindo que dá pra fazer isso sem precisar ser pomboca ou sem-graça. Desviar o olhar do nosso próprio umbigo, ser complacente, calar quando é preciso, observar e falar com calma nas horas difíceis é algo que divide espaço muitíssimo bem com um papel de protagonista solar, de alma brilhante, colorida, divertida e criativa. E é nessa junção que reside o verdadeiro poder. E é assim que nascem seres apaixonantes.

Chega a ser evidente que esse é o símbolo real da evolução da espécie, não? Tão óbvio que o princípio cristão do amor-ao-próximo só poderia nos favorecer. E é tão difícil de enquadrar. Às vezes doloroso de pôr em prática. Todo começo é difícil, vai. Mas tenho o grande palpite de que vale a pena tentar. Não é à toa que Manoel Carlos já confessou em entrevista que a característica que o inspira, encanta e mantém a intercessão entre as Helenas de suas novelas é a resignação, posto que divina, arrebatadora. E – se te faltavam argumentos – os machos piram.

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